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A ilha dentro da ilha

A menina já havia entrado em aviões antes. Sabia que eles voavam como pássaros mas, naquele dia em que ia para mais longe que nunca, um avião a surpreendeu: virou pedra. Outra menina, assustada, deixou sair o espanto que todos calaram, plantando-o em cada um dos ouvidos... Foram segundos que souberam horas. E ela aprendeu que, embora o chão esteja sempre lá, às vezes pode não estar...

Quando respirou aliviada porque o chão decidiu realmente estar, foi a vez do ar. O ar lhe mostrou que, embora ela pouco lembrasse dele, está sempre ao redor. O ar provou que existe, como existe o muro de cal. E ela temeu espichar a mão à frente e não conseguir respirar o muro...

Por fim, chegou à ilha dentro da ilha... E, como não sabia mais se o chão e o ar estavam lá, duvidou que ela mesma estivesse. Não sabia mais que língua falar. Ficou triste por estar longe de tudo e de todos. Ficou feliz por estar perto de tudo e de todos. Corajosa, ousou poesias e imagens. Medrosa, quis fugir do frio, do vento, do vazio.

Encantou-se com a profundidade do azul e tudo que viu e ouviu. Fez amizade com a mafiosa gangue de cães (e isso lhe foi muito útil), caminhou através do pôr do sol dias a fio, procurando guardá-lo em uma caixinha...

Descobriu que não sabia quase nada e se alegrou porque podia aprender quase tudo. Entendeu que comprar não deixa ninguém feliz, mas estudar com alegria, sim. Sorriu entre um dia e outro, pois soube que línguas diferentes dizem a mesma coisa... Chegou a pensar que o mundo estava lá mesmo, na ilha dentro da ilha.

E descobriu amigos que ela não sabia que existiam, de lugares que ela nunca havia visto e de outros lugares que ela precisa voltar a viver. Ela entende agora, que precisava perder o chão, encontrar o ar, perder-se de si mesma, para ver nos olhos dos amigos a neve e o riso, o calor e a arte, o carnaval e a alegria, o silêncio e a música, a lágrima e a amizade... É certo que o mundo dela ficou maior e mais colorido. Agora reaprende a andar nesse mundo distante da ilha dentro da ilha, mas que a contém (ela sabe!) como a concha ao grão de areia. E todas as recordações da menina se aquecem com a bola de fogo do horizonte daqueles dias frios, que está guardada em seu coração.
:)

03/04/2009 Publicada por valzen


Que bom que outras meninas vem dançar comigo aqui... Adorei sua visita, Iana ;)

25/05/2009 10:04 Valéria valzen@uol.com.br

E se voce fecha o olho A menina ainda dança Dentro da menina Ainda dança Até o sol raiar Até o sol raiar Até dentro de voce nascer Nascer o que há beijos, val, adorei os textos!

25/05/2009 09:47 iana ianaparo@gmail.com

Clarissinha, que bom que você me vê como uma alquimista... rsrsrs. Obrigada a você!

27/04/2009 01:33 Valéria valzen@uol.com.br

Renata, que bom que você gostou. Acho que a sua criança interior se viu no meu texto, também, não? Obrigada pelo comentário, minha linda!

27/04/2009 01:31 Valéria valzen@uol.com.br

Val! Que linda homenagem... a descrição embora seje sua, remete um pouquinho de todas nós. Beijo grande e continue escrevendo!

14/04/2009 13:49 Renata renasci@hotmail.com

só mesmo a valeria pra fazer as palavras transformarem em ouro puro tudo o que ela olha ou sente ou cheira ou toca ou saboreia... esteja ela aqui ou acolá. obrigada, querida.

13/04/2009 11:57 clarisse clafritz@uol.com.br

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