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O que é isto?


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Suíte Havana

A menina pensou que havia entrado em um filme de Almodóvar quando trocou de avião, mas foi engano seu. O filme era outro, e ela só descobriu depois... Nesse mundo em que ela pousou, o tempo foi aprisionado. Não lhe permitem sair. Como em nenhum outro lugar, ele dá vida e suor, tristeza e alegria, morte e compaixão. Nunca na mesma ordem. Ele está presente em tudo e em todos, como um remédio. Ele está presente em tudo e em todos, como um veneno...

Os prédios têm detalhes de grades em espirais e linhas sinuosas desenhadas há muito. As paredes, descascadas com pátina cuidadosa, sustentam a vida singela de quem aceita a ditadura e a sabedoria do tempo com carinho e resignação. As ruas têm estátuas (e algumas delas usam óculos necessários), placas fundidas pelo passado e postes de luz para se olhar o céu de quando não existíamos. Os carros são máquinas do tempo que permitem aos adultos, embasbacados na calçada, acenar para eles mesmos, crianças satisfeitas no banco traseiro...

As casas têm uma arquitetura única. O teto fica muito acima das cabeças dos moradores (e, portanto, bem distante dos pés dos mesmos, tanto do direito quanto do esquerdo), dando espaço para todos plantarem seus sonhos-semente, que crescem até se tornar nuvens-copas de árvores. Os sonhos, lá, são grandes o bastante para alimentar a alma, e pequenos o bastante para crescer dentro das casas, o que parece impossível e não há como descrever. Só pode ser compreendido, enfim, por quem olhar com os próprios olhos. Em nenhum outro lugar do mundo se consegue cultivar esse tipo de sonhos-árvores-nuvens naturais.

A imagem de um jovem com uma estrela no olhar se repete em ruas e prédios, em fotografias e desenhos, em salas e quartos. É ele quem cuida para que os sonhos-semente germinem. É filho de todos. E pai. E marido. E irmão. E amante.

O ruído do vento contínuo, o ir e vir das ondas do mar dá aos passos, nas ruas aconchegantes, uma música sensual e alegre que, algumas vezes, falta ao riso.

De quando em quando, o mar invade tudo com fúria e paixão, porque o tempo é, acima de tudo, cruel...

Mas é também delicado e suave como uma pequena mariposa. Uma mariposa delgada e branca que pousa no nariz de cada visitante e deixa a impressão de que a vida toda acabou de passar diante dos olhos. De que a vida toda levará séculos. De que a vida toda não passará de poucos segundos.

(a menina sentiu uma cosquinha no nariz e já não sabe mais para onde estava indo antes do tempo a atacar com fúria e delicadeza)


26/04/2009 Publicada por valzen


texto escrito depois de assistir o lindo filme Suíte Havana.

27/04/2009 01:02 Valéria valzen@uol.com.br

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